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Se me pedissem para eleger os melhores momentos das minhas últimas semanas nos Açores, eu não saberia por onde começar. Talvez por aquele instante em que, na garagem onde se kitam carros no lugar das Guerrilhas, freguesia da Terra Chã, um dos durões afaga um cão e, perante a incredulidade geral, balbucia: “Então? É um ser humano como nós!” (…)
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Ou então talvez ainda por aquele em que três ou quatro desses durões estão a fumar no quintal enquanto falam de “centralinas” e de “hidráulicos”, já de noite, e a certa altura um deles, precisamente aquele que já antes tinha dado sinais de mais espessura, se lembra de que eu estou ali, olha para mim e faz um trejeito de justificação: “Conversas de quintal…” – e logo a seguir volta às “centralinas” e aos “hidráulicos” (…)
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Os durões da minha terra, se não são deliciosos, são ternurentos. Ternurentos nos seus subtis gestos de afecto uns para com os outros, (…) e ternurentos, claro, no seu confessado objectivo de atenuar vagamente a respectiva insignificância conseguindo kitar um carro como nunca ninguém kitou antes. Problema: nada nas suas vidas vai para além desse objectivo. Alguns trabalham no campo, outros no depósito do lixo. Tudo o resto as suas vidas, porém, é aquilo: kitar o carro, meter um CD de música tunning no leitor, ligas as colunas e os néons e depois ir passear a “discoteca ambulante” à cidade. E, se vos parece que estou a falar de miúdos de 14, 15 ou 16 anos, desenganem-se já. Estou a falar de homens de 20, 25, 30, 35 anos. Estou a falar de homens de 40 anos, até. Homens que recebem os amigos no quarto de cama para os ajudarem a desenhar as letras, a recortar os desenhos e a misturar as cores com que enfeitarão o carro.
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Preocupado com as corridas ilegais, o excesso de velocidade, o álcool? Eu? Não: o tunning, como me explicaram todos repetidamente, não é racing. Preocupa-me sim esta geração. Esta nova geração de homens rurais e a ideia que nos dá de como as referências tradicionais da ruralidade português faliram, lançando à vida madraços para quem enfiar quatro ou cinco mil euros de decoração pirosa num Opel Corsa com valor de mercado de quinhentos é proclamado “investir”. Esta geração de homens rurais, de resto, iguaizinhos aos homens urbanos da mesma idade que, nas noites de sexta-feira e de sábado, recebem os amigos no quarto de cama para jogar PlayStation ou (agora parece que é mais cool) póquer. Aparentemente, a cultura pop, agora, é isto. E isso não é um problema estético: é ético mesmo. O que é que se pode esperar destes rapazes?
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Crónica de Joel Neto in azorean spirit, Sata Magazine nº34





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